domingo, 5 de abril de 2009

Imagem corporal nos transtornos alimentares e obesidade

Por Dra. Fabiana Alves Nunes - Especialista em Endocrinologia, Mestre em Medicina pela UFMG

Falando em saúde articular e óssea, é muito importante manter um peso adequado (IMC1= 19 a 24,9) para não sobrecarregar as articulações de sustentação corporal com o excesso, ou no caso oposto, na anorexia, não causar perda da massa óssea e consequente osteoporose.

A imagem corporal tem papel fundamental no desenvolvimento e perpetuação de condições clínicas como a obesidade e transtorno alimentares como compulsão alimentar, bulimia e anorexia nervosa.

Paul Schilder, psiquiatra austríaco, conceitua imagem corporal afirmando que "... entende-se por imagem do corpo humano a figuração de nossos corpos formada em nossa mente, ou seja, o modo pelo qual o corpo se apresenta para nós" (1994).

Para JK Thompson (1996), o conceito de imagem corporal envolve três componentes: 1) o Perceptivo, que se relaciona com a precisão da percepção da própria aparência física, envolvendo uma estimativa do tamanho corporal e do peso; 2) o Subjetivo, que envolve aspectos como satisfação com a aparência, o nível de preocupação e ansiedade a ela associada; e 3) o Comportamental, que focaliza as situações evitadas pelo indivíduo por experimentar desconforto associado à aparência corporal.

Stice (2002), ao estudar fatores de risco e mantenedores dos transtornos alimentares, mencionou um modelo sócio-cultural associado a estes transtornos de imagem corporal. Neste modelo postula-se que a pressão social para ser magro promove não só a internalização de um ideal de magreza (muitas vezes inatingível), como também a insatisfação corporal, levando a uma avaliação exagerada da importância da aparência física. Além da pressão social, Stice relatou o processo de modelagem, em que o individuo observa comportamentos de outros e os imita. A sociedade pode ser um modelo de preocupações com as medidas corporais, dietas excessivas, comportamentos não-saudáveis de controle de peso e, em última análise, compulsões alimentares.

Não há uma única etiologia para os transtornos alimentares e obesidade. Acredita-se que aspectos genéticos, orgânicos, psicológicos e socioculturais estejam envolvidos. Muitas pesquisas e estudos genéticos com gêmeos indicam maior prevalência de obesidade e transtornos alimentares em algumas famílias, sugerindo um possível fator genético causal. Alterações de neurotransmissores moduladores da fome e saciedade como dopamina, serotonina, ghrelina, noradrenalina, NPY e outros tem sido descritas como predisponentes para os transtornos alimentares e obesidade. Aspectos psicológicos como dificuldade de comunicação ou relações conflitantes entre familiares, baixa auto-estima, rigidez no comportamento, são considerados predisponentes ou mantenedores do quadro de ganho ou perda ponderal que ocorrem na obesidade e transtornos alimentares. Por fim os aspectos socioculturais já descritos por Stice, Thompson e tantos outros, em que a obsessão em ter um corpo magro e perfeito é reforçada no cotidiano das sociedades em todo o mundo.

Tanto a obesidade como os transtornos alimentares acarretam inúmeras alterações no sistema cardiovascular, no metabolismo glicêmico, lipídico, na regulação da calcemia, dos íons, dos hormônios tireoidianos, adrenais e gonadais. No que diz respeito ao osso e articulações, a obesidade, ao mesmo tempo que está relacionada a aumento da massa óssea, também está envolvida na patogênese, nas manifestações clínicas e na evolução das doenças musculoesqueléticas. O estudo realizado por Radominski (1998) demonstrou a associação da obesidade com dor lombar e, principalmente, com hérnia discal, e foi relatado que a dor articular é um sintoma muito freqüente e agravante em indivíduos com excesso de peso, por acarretar sobrecarga mecânica aos ossos e às articulações. Também já foi descrita a produção de fatores inflamatórios e fatores de necrose tumoral pelos adipócitos. Sendo assim em casos de obesidade (IMC>30) podem ocorrer dores articulares mesmo nas articulações não relacionadas à sustentação do corpo. Além disso, a incapacidade advinda dessa co-morbidade é fator determinante na redução de qualidade de vida dos pacientes.

Em relação aos transtornos alimentares, em especial a anorexia nervosa, o medo de engordar é tanto que as pacientes portadoras (maioria mulheres) passam a ter comportamentos restritivos (não comer) e/ou purgativos (provocar vômitos e diarréia) como na bulimia, perdem muito peso e muitas vezes este baixo peso (IMC <18)>ingestão deficiente de cálcio, e hipercortisolismo presente em muitos caos. Existem relatos de pacientes com anorexia nervosa e fraturas de ossos longos, vértebras, arcos costais.

O tratamento destes transtornos deve ser multiprofissional, com envolvimento do médico, da nutrição, da psicologia e também dos familiares. Como os resultados dos tratamentos ainda são insatisfatórios em um grande número de casos e com o crescimento dos casos de obesidade e compulsão alimentar e também da anorexia e bulimia, considera-se de grande importância as medidas profiláticas como difundir nas escolas os benefícios da atividade física para a manutenção de um peso saudável, a importância de uma dieta equilibrada, e a detecção precoce pelo Pediatra ou Hebiatra, de aspectos familiares ou comportamentais predisponentes.

Referências:

Bandeira, Francisco. A obesidade realmente fortalece os ossos?. Arq Bras Endocrinol Metab [online]. 2007, v. 51, n. 6, pp. 895-897

Saikali, Carolina Jabur; soubhia, Camila Saliba; scalfaro, Bianca Messina and Cordas, Táki Athanássios. Imagem corporal nos transtornos alimentares. Rev. psiquiatr. clín. [online]. 2004, vol.31, n.4, pp. 164-166.

Leal, Gláucia. Você tem fome de que? Mente e cérebro. Ed. Especial no. 18

Wajchenberg, Bernardo Léo. Tecido adiposo como glândula endócrina. Arq Bras Endocrinol Metab [online]. 2000, vol.44, n.1, pp. 13-20


sexta-feira, 3 de abril de 2009

Artrite Reumatóide

Trata-se de patologia inflamatória crônica sistêmica, o que significa que ela acomete não só as articulações, mas também outros órgãos e sistemas como o coração, pulmão, olhos e sangue.

A Artrite Reumatóide (AR) acomete homens e mulheres de todas as idades, com picos de incidência em adultos jovens e mulheres em pré-menopausa, numa relação de prevalência de duas a três mulheres para cada homem. Considerada incurável até o momento, a expectativa de vida pode ser reduzida tanto em homens como em mulheres com artrite reumatóide e aqueles pacientes com o tipo mais grave da doença apresentam as mais altas taxas de mortalidade.

Desenvolve-se de maneira insidiosa em 70% dos casos, sendo, portanto, possível também o aparecimento súbito. Muitas vezes, antes de surgirem as queixas articulares, os pacientes podem apenas relatar sintomas gerais: febrícula, mal-estar, sudorese, perda do apetite, emagrecimento, desânimo, angústia e irritabilidade.

Ao contrário do que muitos imaginam a AR é uma doença potencialmente grave e debilitante. Podemos explicar tal afirmativa esclarecendo duas principais vertentes das manifestações dessa patologia:

1. Manifestações articulares

O acometimento articular localiza-se predominantemente nas articulações sinoviais (aquelas que contêm uma camada de células produtoras do líquido sinovial e dotadas de maior mobilidade) e tecidos periarticulares. Desse acometimento decorrem: dor, calor e rubor das articulações e, com o evoluir da doença, limitação dos movimentos e deformidades.

São simultaneamente acometidas e de modo simétrico (direito e esquerdo). A rigidez matinal significa que ela é mais intensa após despertar e sua duração guarda relação com o grau de atividade da doença, ou seja, quanto mais tempo as juntas ficam endurecidas, mais ativa está a doença.
Qualquer articulação sinovial pode ser acometida, sendo que algumas com mais conseqüências:
Mãos
Joelhos
Pés
Cotovelos
Ombros

A coluna vertebral somente a porção inicial da coluna cervical (primeira e segunda vétebras) é acometida. A inflamação neste local tende a ocorrer em pacientes com doença mais grave e, pode ter conseqüências também graves pelo fato dessas articulações estarem em contato íntimo com a medula espinhal.

Alguns pacientes que convivem longamente com a doença poderão estar limitados ao ponto de não poderem trabalhar ou depender da ajuda de outras pessoas até mesmo para o cuidado pessoal diário.

2. Manifestações sistêmicas

Em relação às manifestações sistêmicas, alguns pacientes desenvolvem anemia, lesões nodulares sob a pele ou no interstício dos pulmões, lesões nos nervos periféricos dos membros inferiores, problemas oculares, pericardite, entre outros.

Muito freqüentemente os pacientes queixam-se de olho seco e boca seca. Essas queixas podem fazer parte da Síndrome de Sjögren, caracterizada por secura de mucosas e outras manifestações como aumento das glândulas parótidas, alterações dos túbulos renais, entre outras.

Consideradas em conjunto podemos avaliar o impacto sob a saúde e qualidade de vida dos indivíduos afetados pela doença.

A Artrite Reumatóide é uma doença de difícil tratamento. Até 75% dos pacientes apresentam melhora quando são tratados com baixas doses de um número mínimo de medicações durante o primeiro ano da doença, porém 10% ou mais são eventualmente incapacitados por ela.

Períodos regulares de repouso (30-40 minutos) durante o dia devem ser recomendados para todos os pacientes. Programas de exercícios também podem contribuir para a prevenção de deformidades e a manutenção da massa muscular, embora eles devam ser iniciados cuidadosamente se o processo inflamatório agudo ainda estiver ativo. Exercícios e fisioterapia oferecem maior sucesso quando iniciados após a inflamação ter sido suprimida.

Vários dispositivos encontram-se disponíveis para ajudar os pacientes com artrite reumatóide a realizar as tarefas diárias. A avaliação com um terapeuta ocupacional é sempre bem vinda. Sapatos ortopédicos, adaptações de utensílios domésticos ou de trabalho facilitam em muito a dia-a-dia das pessoas.

O tratamento farmacológico da artrite reumatóide tem sido tradicionalmente dividido em medicações sintomáticas e modificadoras do curso da doença. Os antiinflmatórios não-hormonais e os glicorticóides, exercem rápido efeito supressor dos sinais de inflamação, tais como dor e rigidez, mas, infelizmente, eles não alteram a progressão do dano articular.

As medicações modificadoras do curso da doença (chamadas pelos médicos de DMARD’s) são aquelas que conseguem modificar o curso da doença. Dentre estas, podemos destacar a sulfassalazina, a hidroxicloroquina, o metotrexato, a azatioprina, os sais de ouro, a penicilamina, a ciclofosfamida e a ciclosporina. Atualmente as medicações modificadoras da doença estão sendo usadas no início do processo patológico para ajudar a prevenir complicações e incapacidade. Os pacientes devem ser avaliados e se submeter a exames laboratoriais de acompanhamento periodicamente.

Atualmente estão disponíveis medicações denominadas agentes biológicos. Elas atuam mais especificamente combatendo células ou produtos celulares envolvidos diretamente no desencadeamento e manutenção da inflamação articular. No Brasil elas já estão sendo muito utilizadas, sendo disponibilizadas pelo SUS e cobertas pelos planos de seguradoras de saúde. Devem ser indicadas, até o momento, para pacientes que apresentaram falha aos DMARD’s tradicionais, e com critérios e cuidados que são indispensáveis. Entre esses cuidados podemos citar a pesquisa e profilaxia (caso necessário) para tuberculose, avaliação da função cardíaca, e a monitoração de ocorrência e tratamento processos infeciosos. São medicações de uso subcutâneo ou endovenoso, semanal, mensal ou bimestral e, sem dúvida constituem uma importante opção terapêutica para o tratamento de pacientes com artrite reumatóide.

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